À Noite

Insone

feito mosquito

em quarto escuro

procuro nas fissuras

de minhas lembranças

algo que não seja

só esperança

 

Eduardo Silva de Morais

[ Poemas no Ônibus, 18ª edição, 2009 ]

Deixe um comentário

Arquivado em Eduardo Silva de Morais

O Barro

o barro
toma a forma
que você quiser

você nem sabe 
estar fazendo apenas
o que o barro quer

 

Paulo Leminski

[ lembrança ao dia do livro transcorrido essa semana, com um dos maiores poetas brasileiros ]

Deixe um comentário

Arquivado em Paulo Leminski

Pido Silencio

Ahora me dejen tranquilo.
Ahora se acostumbren sin mí.

Yo voy a cerrar los ojos

Y sólo quiero cinco cosas,
cinco raices preferidas.

Una es el amor sin fin.

Lo segundo es ver el otoño.
No puedo ser sin que las hojas
vuelen y vuelvan a la tierra.

Lo tercero es el grave invierno,
la lluvia que amé, la caricia
del fuego en el frío silvestre.

En cuarto lugar el verano
redondo como una sandía.

La quinta cosa son tus ojos,
Matilde mía, bienamada,
no quiero dormir sin tus ojos,
no quiero ser sin que me mires:
yo cambio la primavera
por que tú me sigas mirando.

Amigos, eso es cuanto quiero.
Es casi nada y casi todo.

Ahora si quieren se vayan.

He vivido tanto que un día
tendrán que olvidarme por fuerza,
borrándome de la pizarra:
mi corazón fue interminable.

Pero porque pido silencio
no crean que voy a morirme:
me pasa todo lo contrario:
sucede que voy a vivirme.

Sucede que soy y que sigo.

No será, pues, sino que adentro
de mí crecerán cereales,
primero los granos que rompen
la tierra para ver la luz,
pero la madre tierra es oscura:
y dentro de mí soy oscuro:
soy como un pozo en cuyas aguas
la noche deja sus estrellas
y sigue sola por el campo.

Se trata de que tanto he vivido
que quiero vivir otro tanto.

Nunca me sentí tan sonoro,
nunca he tenido tantos besos.

Ahora, como siempre, es temprano.
Vuela la luz con sus abejas.

Déjenme solo con el día.
Pido permiso para nacer.

 

Pablo Neruda

[ Maior poeta chileno, nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, em Parral - Chile, a 12/07/1904, adotou o pseudônimo inspirado no escritor checo Jan Neruda. Faleceu em Santiago, a 23/09/1973 ]

Deixe um comentário

Arquivado em Pablo Neruda

Soneto (a meu modo e maneira)

Assim, desajeitados,
Carinho ocasional
Sem projeto final
Nem sonhos à distância
Sem sombra ao sol,
Também sem ânsia,
Apenas companheiros de estrada
Ruas, valas, alguns quintais,
Dias, noites, noites e dias,
Sol e chuva ocasionais
Vamos.
Onde as paralelas se encontram,
Lá,
Nos separamos.

 

Millôr Fernandes
[ cartunista, poeta, escritor, tradutor, dramaturgo e humorista brasileiro, nascido a 16/08/1923, falecido na última semana ]

( sugestão do amigo Luiz Ernani Souza )

Deixe um comentário

Arquivado em Millôr Fernandes

idioleto manoelês archaico

Escrevo o idioleto manoelês archaico* (Idioleto é o
dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e
com as moscas). Preciso de atrapalhar as significâncias.
O despropósito é mais saudável que o solene. (Para
limpar das palavras alguma solenidade – uso bosta.)
Sou muito higiênico. E pois. O que ponho de cerebral
nos meus escritos é apenas uma vigilância pra não cair
na tentação de me achar menos tolo que os outros. Sou
bem conceituado para parvo. Disso forneço certidão.

 

*Falar em archaico: aprecio uma desviação ortográfica para o archaico.
Estâmago por estômago. Celeusma por celeuma. Seja este um gosto que
vem de detrás. Das minhas memórias fósseis. Ouvir estâmago produz
uma ressonância atávica dentro de mim. Coisa que sonha de retravés.

 

Manoel de Barros
( advogado, fazendeiro e poeta nascido em Cuiabá em 19/12/1916 )

[ Livro Sobre Nada, 1996 ]

Deixe um comentário

Arquivado em Manoel de Barros

Último segundo

Quando da vida

Houvermos vivido tudo

E nos reste apenas um único segundo

Seja este, gozo profundo

De mim

Dentro de ti

Deixando em ti

De mim, o tudo.


Lorenzo Madrid
( poeta e engenheiro brasileiro nascido em 1953 )

[ In "Romântica Nostálgica & Erótica", 2003 ]

Deixe um comentário

Arquivado em Lorenzo Madrid

As três palavras mais estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.

 

Wislawa Szymborska
( Kornik, 02/07/1923 – Cracóvia, 01/02/2012 ) 

[ poetisa e escritora polonesa, falecida há um mês, aos 88 anos, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 1996 ]

Deixe um comentário

Arquivado em Wislawa Szymborska